Sunday, September 17, 2006

A gente se Acostuma , mas não devia


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma aacender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol,esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre aguerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro eouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber quecada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e veranúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, aengolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, àsbactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutasdo pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila etorce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, agente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e dabaioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma

4 comments:

Ralph Luis said...

procuro não me acostumar.. é difícil, mas é preciso..
ainda mais a morar em cavernas, que é onde vc mora quando está de fundos, com as cortinas fechadas...
a propósito, queridinho, fiz 50 anos, tah? naõ me envelheça mais..hahahaha.. foram 57 convidados... hehe
bjo

Homem, Homossexual e Pai said...

POxa Ale, que texto legal! tem um monte de imagens super legais!
Ei! por falar em imagem temuma PETISQUEIRA lá em casa com seu nome! e vai dar "petisqueirinhas" daqui a pouco! me mande seu endereço no meu email que eu mando para vc!
Espero que não tenha dado nenhuma festa e precisado dela!
(rsrsrs)
abs
fabio

Anonymous said...

Maravilhoso o texto, menino! Uma 'ode ao conformismo'!!!

Anonymous said...

La autora del texto es Marina Colasanti, ¿no? Saludos,